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20 de maio de 2011

Só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade...


" (...) Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido. (...) "

Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'

26 de abril de 2011

Strawberry fields forever.

" - Provavelmente por ter esperado demais, eu sempre exijo perfeição. Por isso é complicado.
- O amor perfeito?
- Não. Nem eu espero tanto. O que desejo é um capricho. Só um capricho. Por exemplo, eu digo agora que estou com vontade de comer torta de morango com chantilly. Então, você larga tudo o que está fazendo e vai correndo comprar. E volta arfando e me entrega dizendo: ‘Aqui está, sua torta de morango com chantilly.’ E eu, jogando a torta pela janela, digo: ‘Ah, já perdi a vontade.’ É isso que eu procuro.
- Isso não me parece ter nenhuma relação com amor.
- Aí é que você se engana. Não sabia? Há épocas em que esse tipo de coisa é de suma importância para uma garota.
- Atirar tortas de morango com chantilly pela janela?
- Exatamente. E eu quero que o rapaz me diga: ‘Tudo bem, o errado fui eu. Eu deveria ter pressentido que você perderia a vontade de comer torta de morango com chantilly. Sou tão idiota e insensível quanto bosta de jumento. Para me redimir, vou comprar qualquer outra coisa que você queira. O que você deseja? Uma musse de chocolate, ou quem sabe uma torta de queijo?’
- E aí?
- Aí eu o amaria perdidamente pelo que ele fez.
- Acho essa história completamente sem pé nem cabeça.
- Pois, para mim, isso é amor. Embora ninguém seja capaz de compreender. Para certo tipo de pessoas, o amor começa em coisas minúsculas ou insignificantes. Só pode começar assim."

Haruki Murakami